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domingo, 31 de maio de 2026

Bonita resenha do blogue de referência "Além do Texto"

Raquel Seiça escreveu em:

https://alemdotexto-consultoria.systeme.io/arvores-tombadas

Quando contemplamos a vida, parece que o vento transporta mais perguntas do que respostas. Afinal, a vida é uma força indecifrável, repleta tanto de mistérios e encantos como de injustiças e dificuldades, ora oferecendo-nos pequenas maravilhas, ora arrebatando-nos como árvores cujas raízes já não suportam mais o peso da passagem do tempo.

Contudo, é preciso lembrar que todos carregamos a marca desse mesmo tempo: o mesmo fim que, um dia, nos virá bater à porta, independentemente de onde residem as nossas raízes. Quer tenhamos nascido com tudo o que pudéssemos desejar, entregue de mão beijada, quer tenhamos tido de lutar arduamente pelas sobras, trabalhando sob o sol ardente ou a chuva torrencial. Quer a esperança seja, para uns, uma simples formalidade, quer, para outros, um sonho perdido e distante. É essa realidade que ecoa nas palavras do autor Rui Conceição Silva, em Árvores Tombadas.

Nesta obra, somos levados para Portugal nos anos 40, um país parado, onde pensar livremente era um risco e onde a respiração pesada da opressão parecia estar sempre presente. No entanto, a ação não se desenrola nas cidades grandes, entre o alvoroço e a agitação, mas sim no coração de Portugal, entre as terras serranas, os riachos, as noites taciturnas e o constante chilrear dos pássaros. É aí que nos encontramos numa modesta aldeia chamada Pinhal dos Ventos, um lugar onde simplesmente viver é tanto uma dádiva como um castigo.

Por entre as costas curvadas e os rostos enrugados e exaustos, marcados pela miséria, pela mágoa, pela fome, pelos segredos e pelas injustiças, acompanhamos Estrela, uma jovem professora que se muda da grande cidade para Pinhal dos Ventos. Com ela, chega também uma lufada de ar fresco, um discreto símbolo de mudança. Entre vários episódios do quotidiano da aldeia, Estrela procura adaptar-se aos costumes locais, conhecendo e criando laços com os seus habitantes: a viúva D. Adelina; o merceeiro-taberneiro Gregório; o tio Ramiro; o ferreiro Taborda e, sobretudo, o amável Ricardo Falcão, sucessor da herdade da família Falcão, iniciando uma breve história de amor e perda, e a pequena Teotónia, com quem estabelece uma relação de amor incondicional, repleta de ternura, carinho, proteção e compaixão.

Personagens humildes, peculiares e, por vezes, cómicas, mas, ao mesmo tempo, melancólicas e amarguradas que trabalham arduamente todos os dias até às altas horas para sobreviver e vivenciar um amanhã. Vivendo com o pouco que têm, tentam esquecer o peso das suas vidas, agarrando-se às pequenas coisas: um copo de pinga, pão molhado em azeite, tremoços e rodelas de chouriço entre uma boa companhia e um bom baile. Uma réstia de consolo e de contentamento, ainda que por instantes, enquanto os ricos se vangloriam às custas dos seus esforços.

Contudo, para além de expor o contraste entre estes dois mundos – ricos e pobres, cidade e aldeia –, Rui Conceição Silva procura também destacar a beleza da simplicidade, da vida rústica nos campos agrestes, com a dança das árvores ao doce vento, o cantar melodioso dos pássaros, a tranquilidade das caminhadas e dos passeios de bicicleta pelos vales, a corrente calma do rio e a quietude das noites banhadas pelo luar. Às vezes, encontramo-nos tão sufocados pela nossa angústia e sofrimento que nos esquecemos de reparar na beleza da Mãe Natureza que nos rodeia. Afinal, não é o lugar que nos entristece, mas sim as pessoas e as suas ações.

Através de uma linguagem forte, pesada, mas esperançosa e honesta, o autor apresenta-nos um romance que retrata a realidade dos povos do interior durante os tempos da ditadura e a verdadeira dureza da vida que muitos conheceram e que, infelizmente, ainda conhecem. Ao mesmo tempo, sublinha a importância de lutar pelos ideais em que acreditamos e de cuidar daqueles que precisam, que pouco ou nada têm. Uma leitura poderosa que nos convida a refletir sobre o passado e ir em busca de uma melhor qualidade de vida para o país pelo qual tantas gerações lutaram.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Bonito artigo do blogue "Peralcovo", intitulado 'Rui Conceição Silva, um escritor de Figueiró'

Vítor Reis escreveu em:  https://de-peralcovo.blogspot.com/2025/12/rui-conceicao-silva-um-escritor-de.html

Rui Conceição Silva é um escritor natural e residente em Figueiró dos Vinhos.
Há já bastante tempo que queríamos publicar aqui uma referência à sua pessoa e à sua obra, fica agora.
Como pessoa julgamos que para quem o conhece a opinião é unânime: o Rui é uma pessoa maravilhosa - simpático, afável, humilde, solidário, com valores, amigo da sua terra e dos seus amigos.
A apresentação do Rui nos seus livros:
Rui Conceição Silva nasceu em 1963, em Figueiró dos Vinhos, onde reside. É casado, tem dois filhos e dois netos, que fazem dele uma das pessoas mais ricas do mundo. Começou tarde no mundo da escrita, tendo aos 52 anos publicado o seu primeiro romance, no ano de 2015. Anos mais tarde, em 2022, foi um dos doze autores portugueses nomeados para o Prémio Oceanos, graças ao seu livro Deste Silêncio em Mim.
Discreto por natureza, adora estar em família e viver na sua terra, na qual se sente completo, pelo convívio com a natureza e com as pessoas das aldeias e das pequenas vilas em redor, nas quais encontra muita da inspiração para os seus livros. Árvores Tombadas é o seu quarto romance, depois de Quando o Sol Brilha (2015), Dei o Teu Nome às Estrelas (2018) e Deste Silêncio em Mim (2021).
O livro que mais nos terá tocado será certamente “Dei o teu nome às estrelas”; pelo cenário onde se desenvolve – Figueiró e as aldeias do seu termo –, enquadramento histórico e cultural – a vida no meio rural no séc. XIX, os pintores José Malhoa e Manuel Henrique Pinto, a vida cultural de Figueiró –, mas também pela beleza e fluência da narrativa e pela emoção que nos consegue transmitir (raramente vou ao Casal/ Fragas de S. Simão que não pense na Olinda...).
A sinopse do romance “Dei o Teu Nome às Estrelas”:
 "Em 1883, numa terra como tantas outras, perdida na imensidão das serras e longe dos olhares do mundo, vivia Joaquim, professor e narrador desta história, um homem sem  alento, esperando por tempos que não vinham.
Contudo, nesse ano, chegam à terra duas pessoas que irão mudar a sua vida para sempre: José Malhoa e Manuel Henrique Pinto, semeadores de maravilhas. É com eles, e com outros caminhantes, que Joaquim encontrará o lado bonito da sua terra, qual paraíso escondido entre montanhas.
Um dia, ele escuta a voz de Olinda, a mulher que lhe seduz os silêncios e os sonhos, e fica preso a esse amor, o único que guardará eternamente."

Obrigado pelo bonito artigo! 😊

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Bonita opinião do escritor Joaquim Jorge Carvalho, no seu blogue "Muito Mar" e no facebook

https://muitomar.blogspot.com/2024/11/arvores-tombadas-de-rui-conceicao-silva.html

Joaquim Jorge Carvalho escreveu:

«Estou sempre a ler e, quando há, na secretária, vários títulos clamando a minha atenção, gosto de, tanto quanto possível, não me desviar dos livros já encetados. Às vezes, incumpro essa útil disciplina – por exemplo, quando deito os olhos aos primeiros versos de um livro de poesia ou à primeira página de um romance e me acontece o célebre enamoramento da literatura. 

Aconteceu-me com o romance "Árvores Tombadas", de Rui Conceição Silva, um autor da minha geração, que talvez não receba, como tantos, a atenção que a sua qualidade literária justificaria. 

Contada a várias vozes, a história fundamental do romance remete-nos para um mundo antigo, rural e marcadamente português, historicamente situado no Estado Novo, palco de uma vida geralmente dura (nomeadamente no que se refere ao povo mais humilde), com a omnipresença da pobreza, do desamparo, da fome e da repressão política e policial. Num lugar povoado de tipos populares, simples no pensar e no falar, mas profundamente carregados de humanidade, surge um elemento novo, cujo olhar sobre a terra servirá, aos leitores, de guia e de testemunho: na verdade, os olhos da jovem professora Estrela, que vem da “cidade grande” para aquele pedaço de “Portugal profundo”, serão daí em diante – em grande medida – os nossos olhos. E nossos também, naturalmente, os seus assombros, encantamentos, medos, choros ou prazeres.  

É muito difícil parar de ler uma história de que, logo às primeiras páginas, nos tornamos cúmplices, familiares, íntimos. A narração, embora não disfarce a dureza e a crueldade dos factos relatados (até no vernáculo-calão eminentemente coloquial que, de quando em vez, emerge das falas das personagens), traz consigo uma espécie de melancólica doçura, como se a leitura fosse concomitante às vidas ali convocadas -  mas, atenção, tudo isto muito longe da lágrima fácil ou sentimentalona. Há neste discurso narrativo, digamos assim, para além da construção pormenorizada de um microcosmos profundamente verosímil e, aqui e ali, brutal, a amável incorporação da ternura. 

Não por acaso, aconteceu-me sentir, no final da leitura, saindo da narrativa, um perfume familiar, reconhecível, grato: era, digo-o agora, o eco formoso de Júlio Dinis, cujas histórias desde sempre me encantaram. Pergunta: que segredo há nas histórias que nos prendem, fascinam, conquistam? 

[Durante anos, combatendo o preconceito, o menosprezo ou a indiferença da universidade perante Júlio Dinis, tentei perceber que poder encantatório era aquele emanando da sua escrita – e acabei, mais ou menos fatalmente, por dedicar um doutoramento ao estudo da sua obra, em particular aos seus romances e contos. Esse estudo culminou numa tese – mais tarde, publicada pela Ed. Caleidoscópio – intitulada "Acção, Cenas e Personagens na Narrativa Dinisiana: As Pupilas do Senhor Escritor".]

Em "Árvores Tombadas", há esse poder, sim. É o tal perfume (que, à falta de melhor palavra, chamarei “dinisiano”), isto é, essa arte muito complicada de bem contar uma história. Lendo-a, parecer-nos-á talvez que, dada a fluência e leveza do discurso narrativo, não se tratará decerto de trabalho complexo por aí além; ora, a isto de tornar “fácil” o que é consabidamente “difícil”, meus amigos, chama-se talento. 

"Árvores Tombadas", de Rui Conceição Silva (Ed. Visgarolho, 2024) é um belíssimo romance, que agora celebro e recomendo.

Coimbra, 08 de Novembro de 2024.» 

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Bonita opinião no blogue "As Leituras da Fernanda"

https://as-leituras-da-fernanda.blogspot.com/2024/10/mais-um-livro-excecional-pela-mao-deste.html

Fernanda Carvalho escreveu:

«Mais um livro excecional pela mão deste autor que já me conquistou há alguns livros atrás.

As palavras que lhe saem da pena são pura poesia e as histórias, ecos de um passado ainda tão presente.

Alternando o narrador conforme nos viramos para ouvir este ou aquele pensamento, é uma história de desamores, tristezas e mágoas, de vidas duras no Portugal profundo dos anos 40. 

A riqueza da construção das suas personagens, faz-nos esquecer o destino, e obriga-nos a apreciar a viagem. Os acontecimentos sucedem-se, e o nosso coração reluz de nostalgia, senão por uma época, pelo menos por um lugar onde o céu era mais azul.

Foi uma leitura que me deu imenso prazer. As palavras de Rui Conceição Silva são palavras a não perder de vista.

Bem haja!»

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Bonita opinião no blogue, e página do Instagram, Biblioteca Mil

Mónica Mil-Homens escreveu:

Comovente, a "puxar à lágrima" e nostálgico. A beleza com que o Rui escreve já é tão natural, tão habitual que sabemos que vamos ter um romance maravilhoso mesmo antes de o lermos. Uma estória tal como tantas outras, passadas no Portugal profundo da década de 40 do século XX, com um rol de personagens que nos envolvem na narrativa desde o primeiro segundo e nos emocionam, nos fazem sentir profunda empatia, ou até diria em em algumas passagens, tristeza, por sabermos que era assim que se vivia em Portugal e que os nossos pais e avós passaram por isto (pelo menos os meus). Onde ser criança não era possível, onde a miséria e a luta constante do trabalho no campo desde tenra idade tornava as pessoas mais brutas, mais amargas e com mais demónios. Como devem calcular, existiam os ricos, para quem os pobres dos campos trabalhavam e esses senhores com posses "dominavam" toda uma aldeia, toda uma região e a palavra deles era lei, mas Estrela, Ricardo e Teotónia vão mostrar que as coisas podem ser sempre passíveis de serem mudadas e que para sermos realmente felizes, emocionalmente felizes, é preciso tão pouco. Recomendo muito esta leitura, com um enredo bem pensado, uma escrita maravilhosa e que nos faz dar graças por não termos vivido naquela época, onde até os sonhos nos queriam roubar e fazer desistir.